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Com a vida restrita aos limites de "Estrela", dona Sofia lembra que lá mesmo aprendeu a ler e escrever, com um professor particular, contratado para ensinar os 21 filhos de Manoel Filgueiras. Sem quase nunca deixar a fazenda, dona Sofia só frequentava os bailes da juventude da época, quando eles eram patrocinados por seu pai. "Tinha muita festa na nossa casa. Eram bailes lindos, com os rapazes vindo a cavalo, todos bonitos e elegantes. Eu gostava muito de ficar olhando para eles", disse.
Mas não foi com nenhum desses rapazes, "lindos e elegantes", que ela se casou. Como era costume na época, os casamentos eram arrumados pelos pais e no caso dela não foi diferente. "Um dia minha mãe chegou perto de mim e disse que ia me casar. Eu falei para ela que não queria, que queria mesmo continuar brincando com minhas bonecas". Mesmo contra sua vontade, dona Sofia foi entregue ao funcionário da Central do Brasil, o português Joaquim da Silva Carvalho que era viúvo e tinha quatro filhos.
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Assustada com a idéia do casamento aos 22 anos, e sonhando mesmo com os rapazes dos bailes, dona Sofia chegou a dizer ao homem, com que iria viver mais de 60 anos, que não gostava dele e que preferiria continuar brincando de bonecas. Sem a companhia do pai, que morreu de desgosto por não conseguir continuar guiando sua lavoura depois da Lei Áurea, ela casou e abandonou a vida da fazenda, indo morar em Três Rios no Estado do Rio de Janeiro ( ).
Na cidade, dona Sofia e o português tiveram 11 filhos, Izabel, Irã, Iolanda, Iraldina, Luzia, Maria da Glória, Carlos, Mirita, Isaura, Alberto Henrique e André Luiz. Mas, na verdade, os dois formaram uma família com 17 membros, já que Joaquim da Silva teve quatro filhos do primeiro casamento. "Nós nunca tivemos uma reclamação da mamãe de que ela estava cansada. Ela nunca perdeu a paciência com a gente", comentou Iolanda Filgueiras, a filha do meio, que toma conta da mãe.
Retirado do Jornal Estado de Minas - Domingo, 1° de Maio de 1988 - pág. 17 - "Dona Sofia, 100 anos, relembrando os negros tempos da escravidão", por Beatriz Lima
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